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Mostrando postagens de 2025

O Amor em Jesus

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  Iniciar um novo ano exige, às vezes, mais do que novos propósitos: exige uma nova forma de compreender o amor. “Ame o próximo como a si mesmo.” - Sem dúvida, Jesus dá a medida do amor saudável ao dizer essas palavras. É por aqui que devemos começar, porque nelas está contida uma chave que muitos esquecem — ou nunca ousam levar a sério: o “como a si mesmo” não é um adorno gramatical, é uma condição espiritual . Não se pode amar bem o outro se fomos ensinados a desprezar-nos, a ceder sempre, a anular-nos para evitar conflitos, a calar-nos para manter laços que só se sustentam se nos apagarmos. Jesus não diz: “ame mais o outro do que a si mesmo”, nem “perca-se para que o outro se encontre”, nem “permita que passem por cima de você porque isso é amor”. Não. O mandamento é claro, equilibrado, profundamente lúcido: o amor ao outro deve brotar de um amor por si mesmo que não seja egoísta, mas real . Porque ninguém dá o que não tem. E quem não se ama, não estabelece limites. E quem não ...

Mirra: Ouro e Incenso

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  …até chegar e tocar. E saber que não se trata de seguir propondo códigos de moral e compromissos com atitudes de bondade como preceitos a serem guardados. Isso não funciona. Nunca funcionou. E, se em algum momento funcionou, esta já não é a época em que tais fórmulas alimentarão o homem pós-moderno. A modernidade não precisa de mais regras; precisa de verdade. E a verdade deve ser exposta sem adornos, sem concessões, sem tentar fazê-la caber em um sistema que, em si mesmo, é corrupto. Precisamos despir a verdade e examiná-la sob a luz de princípios humanos atemporais. Não podemos reduzir o cristianismo a debates sobre normas e comportamentos individuais, porque a fé não é um código de conduta: é um caminho existencial, é a revolução da consciência humana diante da mediocridade imposta pelo mundo. Não podemos discutir em que circunstâncias a vida tem ou não tem valor. Devemos defender o valor inalienável da vida em qualquer circunstância. Se aceitarmos que a dignidade do ser huma...

Incenso: Mirra e Ouro

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  …ainda sem compreender, buscaram incansavelmente. E é justamente a Verdade, entre todas as coisas que Jesus propõe, a mais revolucionária, a mais temível, a mais assustadora. Não se trata de um conceito relativo nem de uma construção humana adaptável ao tempo e às circunstâncias. Trata-se de uma Verdade que transcende os indivíduos, as culturas e as ideologias. Nós, homens, construímos nossa existência à margem da verdade. Cada um cria a sua própria verdade e ajusta o mundo a ela. Edificamos sistemas nos quais a verdade é flexível, manipulável, um instrumento a serviço dos interesses do momento. Mas Jesus nos fala de uma Verdade que não se dobra, que não se acomoda, que permanece firme e absoluta porque provém de Deus como natureza magna. A Verdade de Jesus não é uma opinião, nem uma teoria moral, nem um ideal filosófico. É uma realidade que atravessa a história e nos obriga a encará-la de frente. E é justamente essa Verdade que nos confronta, que nos incomoda, que nos exige muda...

Ouro: Incenso e Mirra

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  Os magos também não entendiam, mas seguiram adiante… A li está o homem irredimível: homens que tentam adaptar a este mundo as coisas que não são deste mundo; homens que maquiam estruturas velhas, apodrecidas e irrecuperáveis por medo da mudança, por medo da transformação. Continuam procurando o novo dentro de sistemas caducos. Por isso Jesus é incômodo. Porque, por trás de cada ação humana feita em Seu nome, está a revelação da Sua voz e da Sua vida humana. Não há como reajustar este Deus. Jesus não pode ser reduzido a um modelo institucional. Não pode ser encerrado em doutrinas desenhadas para manter a ordem sem vida. Ele não é domesticável, não é politicamente conveniente, não é um recurso manipulável a serviço de estruturas de poder. Sua presença é radicalmente disruptiva. Sua simples existência rompe a forma como o mundo se organiza, porque introduz outra lógica, outra maneira de compreender a vida, o poder, a autoridade, a própria existência. A história humana busca sempre s...

O Nascimento

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  Nem todo nascimento se vê; alguns apenas se percebem quando já começaram a nos deslocar por dentro. O s cristãos orientais “creem” naquilo que a Tradição afirma ter sido visto e vivido por aqueles que viram e viveram. Bem valha a redundância. Eles tomam o Evangelho como a Voz de Deus que fala a partir dos fatos da vida de seu Filho Primogênito, e é exatamente nesse ponto que Jesus se torna fronteira do tempo, começo e fim, alfa e ômega daquilo que nos foi manifestado. Do que aconteceu e se fez história; do que foi palavra e se fez Verbo; do que se revelou aos olhos e se fez carne. Não explicamos o que não entendemos, mas também não o negamos. Por isso, muitas vezes, aos olhos da sensibilidade ocidental, parecemos irracionais. No entanto, o que ocorre é que não tememos parecer irracionais; tememos, sim, parecer insubstanciais. Há coisas que jamais serão revelações coletivas; há experiências que são pessoais e que, ainda assim, continuarão impossíveis de explicar. O próprio Cristo ...

A Fortaleza Antônia

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  “Um passadiço secreto conduzia da Antônia ao interior do Templo.” (Ant. XV, 11, §7 – Claude R. Conder, Jewish Encyclopedia ) -  A Fortaleza Antônia estava ali para vigiar o Templo, mas não para zelar pelo fervor do culto nem pela fé reta — que ela nem compreendia nem lhe interessava — dentro de uma ordem religiosa. Estava ali para controlar o movimento, medir a temperatura do átrio e antecipar qualquer deslocamento capaz de alterar aquele equilíbrio sempre instável. Não olhava o coração do culto, o Sancta Sanctorum ; olhava a periferia: a esplanada, o átrio dos gentios, a massa que entra e sai, o murmúrio que cresce ou se apaga. Seus vigias tinham os olhos cansados, não por desinteresse, mas por hábito. A vigilância prolongada não se sustenta pelo fervor, mas pelo instinto de conservação. Um erro de avaliação, um gesto mal lido, um silêncio interpretado fora de tempo, e o posto se perde. A vigilância, então, deixa de ser serviço e se transforma em sobrevivência para a gu...

Ícone não é moda. É memória eclesial

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  O ícone não nasce da imaginação. Não é estética. É memória. É Tradição que não se inventa. P ensei muito antes de decidir escrever este texto. Não é meu interesse — nem minha intenção — que o que exponho aqui se transforme em matéria para debates ou contestações críticas sobre o trabalho ou o pensamento de ninguém. O único motivo que me move é partilhar alguns pontos fundamentais sobre os ícones e a iconografia. O que me decidiu, finalmente, foi uma convicção simples e incômoda: no mundo moderno, tudo parece poder ser reinterpretado. Mas, na arte sagrada, nem tudo pode ser reinventado. O ícone não nasce da imaginação do artista, mas da memória viva da Igreja. É isso que o distingue radicalmente da arte secular e da expressão individual. O ícone não é uma pintura religiosa: é teologia em cores. Cada linha, cada tom, cada rosto pertencem a uma linguagem recebida, na qual o visível se torna testemunho do invisível. Quando, então, os ícones se tornaram tão populares? Em que mome...

Memórias Do Caminho

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  A unidade nem sempre se constrói pela uniformidade, mas pela fidelidade. É em Jesus que, no ano 49, os apóstolos conservaram a unidade apesar das diferenças. Humanamente, cada um deles, a partir da cruz, tomou sua mochila, calçou as sandálias e saiu pelos caminhos para contar o que havia visto e ensinar o que havia compreendido. Mas nem todos viram a mesma coisa, nem entenderam da mesma forma. Assim como o universo criado por um único Deus, também eles eram frutos diversos de uma mesma planta. Essa é exatamente a raiz viva das Igrejas orientais: não uma cisão, não uma adaptação cultural, não um acidente geográfico… mas a continuação direta daquele momento fundacional em que a unidade se manteve em meio à diversidade, não por uniformidade, mas por comunhão em Cristo. O que aconteceu no ano 49 em Jerusalém — o chamado Concílio Apostólico — é o primeiro sinal de uma Igreja católica no verdadeiro sentido do termo: diversa, viva, encarnada em culturas distintas, mas unida pelo centro...

Lluvia - Chuva

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  No todo lo que ocurre afuera es paisaje. -  Ll ovía, y los grises del asfalto se confundían con los grises del alma. Pero brillaban, los del asfalto por el agua de lluvia, los del alma, por ese tipo de desaliento que, de tan cristalino, espeja. Eran las 3 de la tarde; no las 5 de la tarde como el poema de Federico; y desde que amaneciera, estábamos esperando lluvia por la dirección de las nubes y la pesadez atmosférica. Así, de esa forma son las cosas cuando uno tiene más pasado que futuro. ¿Aunque quien puede decir que cuenta con futuro? Al final, solo somos un puñado de recuerdos que no podemos tocar, pero que, sin embargo, son los moldes viejos en los que creamos la forma que los demás observan. Detesto estos momentos, y no obstante, sé que son los que me libran de cadenas. Los que rompen por desgaste mi paciencia y me dejan tan desnuda de pasión como cuando vine al mundo, pero tan hambrienta de todo, también. Pero, ya no necesitada. Sé que puedo cambiar la página sin dej...

O Visitante

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  Relato do momento em que o hermético recebeu, sem desejá-lo, a visita da hermenêutica. Um dia aparentemente comum, em que a quietude do símbolo foi interpelada por um olhar distinto. O velho e enorme gigante espreguiçou-se sob o campanário. Suado e remelento, mas com o mesmo sorriso plácido e o mesmo olhar agudo e inquisitivo de sempre, percorreu o cenário da praça que se abria à sua frente. Era como se cada manhã o surpreendesse do mesmo modo: pesado pela noite, mas alerta; atento ao menor movimento que perturbasse o território que considerava seu desde tempos remotos. Os sinos tocaram ritmicamente e ninguém apareceu na praça. Os pássaros se agitaram nos galhos e disputaram com seus trinados o ritmo metálico. Estava tudo em ordem. Levantou-se lentamente, curvado pelo peso do próprio corpo informe, e dirigiu-se ao caixa de correio, como fazia todos os dias. Certificar-se de que nada havia mudado era parte essencial de sua rotina de guardião. Era praticamente o fundament...

Cristo: A bússola perdida (Parte II)

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  E agora, devo assinalar —como no começo— que não é a minha realidade cotidiana, porque as realidades da Igreja oriental são outra história, são outras dores e outras urgências. Ali não existem facções com cartazes doutrinais nem guerras de microfones para ver quem grita o dogma com mais força. O combate é outro, e mais silencioso. É o de não deixar evaporar aquilo que não se improvisa: a verdadeira Tradição. Creio que a urgência mais importante agora é preparar-nos conscienciosamente, conscientemente, dolorosamente e sacrificialmente para não deixar perder essa tradição pura e diáfana que vem através de dois milênios para nos resgatar a todos. Porque o que nos foi entregue não é um museu, nem uma coleção de gestos bonitos para dias solenes, nem um teatro de ornamentos brilhantes. É herança viva, memória respirada, teologia encarnada. A tradição oriental não precisa inventar inimigos para sentir-se fiel. Seu perigo é mais discreto: a erosão lenta, a distração cotidiana, a com...

Cristo: A bússola perdida (parte I)

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N ão é problema que cerceie a minha realidade cotidiana, mas é um tema que bate à minha porta todos os dias. Ali tomo consciência da responsabilidade de ser católica, além de cristã. Por isso entendo, indefectivelmente, que amadurecer é assumir, ainda que a necessidade não exija. E me vejo obrigada a perguntar qual é a minha postura para além do convencional. Porque não é problema oriental, mas é problema de todos desde o momento em que não há códigos, nem horários, nem métodos para abrir e fechar portas. Mas há coisas que sei com certeza e sem sombra de dúvida. Não quero uma Igreja acorrentada a um código, como se cumprir normas fosse suficiente para respirar o Evangelho. Mas também não quero uma Igreja que vibre ao som de baterias eufóricas para aclamar discursos improvisados sobre anjos e asas. Não quero uma Igreja que receba o caminhante ferido falando com ele em chaves de pecados e purezas. Mas também não aquela Igreja que tolera o olhar inquisitivo do ministro da Eucaristia que c...

Quando a Realidade Reclama o Seu Trono

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  Q uando finalmente decidi escrever este Blog —depois de tantas postergações; tantas!— já não sei se o que faço hoje é o resultado frio de uma decisão executada sem tremor, ou a necessidade quente de algo que vem insistindo por dentro, martelando sem trégua. Seja como for, aqui vou eu . Porque, no fim das contas, das coisas realmente importantes da nossa vida, quase sempre somos inconscientes e alheios. Não fomos conscientes do nosso nascimento, e tampouco fazemos a menor ideia do dia da nossa morte. No entanto, existe uma sequência exata de fatos —conexos, coerentes e quase inevitáveis— que vale a pena expor. A primeira coisa a dizer, para começar, é que embora saibamos que a única coisa permanente é a mudança , esse conhecimento costuma ficar guardado automaticamente na gaveta do meramente filosófico: uma gaveta que só abrimos para exibir um pouco de brilho intelectual diante dos outros. Mas quando essa verdade que todos conhecemos —e que guardamos como bagagem quimérica, qua...

Quando Um Só Acorda, Todos Se Movem

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  "A solidão é uma ficção inventada pelo ego; a unidade é o que somos antes de qualquer escolha." “ E se, como no passado, o remédio fosse marchar lado a lado e no mesmo passo? E se as forças individuais —tão fracas e impotentes quando isoladas— se condensassem na forma de uma posição e de uma ação coletivas? Poderíamos, juntos, alcançar aquilo que nenhum homem ou mulher sonharia conquistar sozinho? Talvez... O problema, porém, é que essa convergência e essa condensação de preocupações individuais em interesses comuns —e depois em ação conjunta— constituem uma tarefa titânica, pois os problemas mais comuns dos ‘indivíduos-por-destino’ não são aditivos. Eles não se deixam somar numa ‘causa comum’. Podem ser reunidos, mas não se solidificam.” — diz Zygmunt Bauman em Modernidade Líquida — e isso me leva imediatamente a pensar em situações concretas e cotidianas. Leva-me, de maneira inexorável, à ideia de que não haveria destino como tal se não existisse uma índole huma...

O Mundo

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  O  mundo. Ah… essas duas palavras tão gastas! Comecemos por elas. O mundo — dizem — está completamente louco, e já nem sabemos se o azul que se reflete como céu é uma tela de alguma tecnologia extraterrestre ou o sorriso de um deus ressuscitado de milênios esquecidos. Este nosso mundo ameaçado por pragas, armamentos, vírus, desastres naturais, aerólitos e, para completar, alienígenas. Este mundo povoado de loucos, políticos desvairados e religiões fracassadas. Este pequeno planeta. Este mundo. Mas também um mundo que continua surpreendendo pela sua perseverança e pela teimosia quase infantil de sobreviver apesar de tudo. Apesar do aquecimento global — e, pior ainda, do aquecimento midiático sensacionalista internacional. Um mundo que sobrevive fazendo malabarismos entre uma multidão de guerras pré-fabricadas e dois bilhões de vídeos ensinando meditação em infinitas versões. Mas afinal, a que nos referimos quando dizemos “O Mundo”? Porque o mar continua ali. E as montanha...