O Mundo



 O mundo. Ah… essas duas palavras tão gastas!

Comecemos por elas.

O mundo — dizem — está completamente louco, e já nem sabemos se o azul que se reflete como céu é uma tela de alguma tecnologia extraterrestre ou o sorriso de um deus ressuscitado de milênios esquecidos.
Este nosso mundo ameaçado por pragas, armamentos, vírus, desastres naturais, aerólitos e, para completar, alienígenas.
Este mundo povoado de loucos, políticos desvairados e religiões fracassadas.
Este pequeno planeta.
Este mundo.

Mas também um mundo que continua surpreendendo pela sua perseverança e pela teimosia quase infantil de sobreviver apesar de tudo.
Apesar do aquecimento global — e, pior ainda, do aquecimento midiático sensacionalista internacional.
Um mundo que sobrevive fazendo malabarismos entre uma multidão de guerras pré-fabricadas e dois bilhões de vídeos ensinando meditação em infinitas versões.

Mas afinal, a que nos referimos quando dizemos “O Mundo”?

Porque o mar continua ali.
E as montanhas, e o deserto.
A lua, o sol, as estrelas, os ventos, as marés — todos seguem nos seus postos.
Os vulcões continuam explodindo como nos tempos de Pompeia, e os tsunamis continuam castigando como na lenda da Atlântida.

Então, quando falamos “o mundo”, estamos falando de nós… ou do planeta que habitamos?

Pensando bem, como em todas as épocas passadas, os adormecidos também continuam ali:
sem perguntas, mas com todas as respostas.
E os despertos — estes continuam igualmente — sem respostas, mas com um milhão de perguntas.
Parece que só mudam os rostos e os calendários.

Muitos dirão que a fome, o desemprego, a corrupção, a amoralidade, a violência, a pandemia de desorientação sexual que assola a humanidade, e a falta massiva de empatia são sinais claríssimos de um apocalipse iminente.

Não.
Talvez se esqueçam — ou nunca tenham sabido — das épocas medievais, das verdadeiras grandes fomes pelas quais a humanidade já passou.
Talvez ignorem que, desde a Antiguidade clássica, a homossexualidade era uma prática comum, integrada e até regulamentada em inúmeras culturas.
E talvez não saibam que, em nenhuma época da história humana, estivemos moderadamente livres de violência, discriminação ou indiferença.

O que realmente está acontecendo — e o que torna esta época e este mundo diferentes de qualquer outro — é que esta é a época em que nos toca viver.

Mas há, sim, características muito próprias deste nosso tempo.

Por exemplo:
a maioria concordará que essa sensação de velocidade que parece impregnar tudo é a grande culpada da superficialidade em que tudo permanece por falta de tempo para aprofundar.
Outros dirão simplesmente que é a falta de discernimento que se espalha como uma pandemia silenciosa sobre a humanidade.
Enquanto isso, nos círculos mais ou menos seletos de intelectuais, fala-se em pós-modernidade, em impacto tecnológico e  no próprio esgotamento do sistema capitalista.

Porque, al final, falar do mundo nunca foi realmente falar do planeta, mas dessa criatura inquieta que somos nós —capazes de erguer catedrais e, minutos depois, incendiar o próprio quintal.
E talvez seja exatamente aqui que reside o maior enigma da nossa época: não estamos nem melhores nem piores que antes; estamos, isso sim, mais expostos.

Expostos à velocidade, expostos ao excesso de informação, expostos à falta de silêncio, expostos às nossas próprias feridas que agora se transmitem em tempo real.
E o que antes se escondia atrás de muralhas, desertos ou distâncias, hoje vive à distância de um toque. Nada mais se perde; tudo se arquiva. Nada mais se esquece; tudo se registra.

O mundo parece pior não porque o seja, mas porque agora o vemos —e o vemos inteiro, nu, sem maquiagem, sem intervalos.
E ver dói.
E a verdade, quando não vem em conta-gotas, costuma assustar.

Mas apesar disso —ou talvez por isso mesmo— continuamos aqui.
E continuamos perguntando, procurando, investigando sentido no meio do ruído global.
Porque, mesmo atolada em contradições, a humanidade ainda tem essa centelha teimosa que insiste em buscar luz, mesmo que tateando.

Então, quando dizemos o mundo, talvez devêssemos admitir que estamos falando de nós mesmos: essa espécie estranha capaz de ruir e renascer no mesmo dia, que carrega dentro de si tanto o incêndio como a água.

E se há algo realmente novo nesta era, não é o caos —que sempre esteve aí—, mas a oportunidade inédita de perceber-nos.
De olhar o espelho coletivo e perguntar, finalmente:

e nós, o que faremos com este mundo que somos?

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