Mirra: Ouro e Incenso
…até chegar e tocar.
E saber que não se trata de seguir propondo códigos de moral e compromissos com atitudes de bondade como preceitos a serem guardados.
Isso não funciona. Nunca funcionou. E, se em algum momento funcionou, esta já não é a época em que tais fórmulas alimentarão o homem pós-moderno. A modernidade não precisa de mais regras; precisa de verdade. E a verdade deve ser exposta sem adornos, sem concessões, sem tentar fazê-la caber em um sistema que, em si mesmo, é corrupto.
Precisamos despir a verdade e examiná-la sob a luz de princípios humanos atemporais. Não podemos reduzir o cristianismo a debates sobre normas e comportamentos individuais, porque a fé não é um código de conduta: é um caminho existencial, é a revolução da consciência humana diante da mediocridade imposta pelo mundo.
Não podemos discutir em que circunstâncias a vida tem ou não tem valor. Devemos defender o valor inalienável da vida em qualquer circunstância. Se aceitarmos que a dignidade do ser humano depende do contexto, estaremos abandonando a própria essência da fé em Cristo. Jesus nunca condicionou o valor da vida humana às suas circunstâncias; ao contrário, veio justamente para redimir aquilo que o mundo considera perdido.
Não podemos discutir quais são os princípios corretos da sociedade. Devemos formar uma sociedade correta, capaz de respeitar princípios. De nada adianta legislar sobre justiça se o coração do homem continua injusto. Não faz sentido promover valores quando esses valores são apenas slogans vazios, incapazes de transformar a realidade.
O mundo e a humanidade não estão “lá fora”, como se fossem um fenômeno externo que observamos à distância. Não somos espectadores da história; somos protagonistas. Não podemos continuar falando em mudar o mundo como se fosse uma abstração, como se a humanidade fosse uma entidade alheia às nossas próprias ações. O mundo é aquilo que permitimos que ele seja.
Jesus não pregou para mudar estruturas, mas para transformar homens. E quando os homens mudam, as estruturas colapsam por si mesmas. A única forma de transformar a sociedade não é impor valores de cima para baixo, mas despertar consciências a partir de dentro.
O cristianismo não sobreviverá neste século se continuar vendendo moralismos enlatados. Sobreviverá se conseguir devolver ao homem o sentido da sua existência, se o confrontar com a Verdade que ele tentou evitar durante séculos. E para isso não existem fórmulas fáceis. Existe apenas uma opção: voltar a Cristo sem maquiagem, sem medo e sem negociações.
O homem é obra de Deus, feito à sua imagem. Mas é diante dessa verdade que o homem encontra sua dificuldade mais intransponível. Qual é essa semelhança com Ele, segundo a qual Deus criou o homem? Seria esse persistente sentimento de onipotência que o move e o conduz ao abismo? Ou será aquela certeza, nascida em algum lugar profundo, de que a sua vida é infinita?
Desde tempos remotos, o homem oscila entre a convicção de ser um deus em si mesmo e o temor de ser apenas pó ao vento. Seu desejo de poder, de controle, de transcendência revela uma paradoxal contradição: busca a eternidade enquanto constrói sobre a areia. Essa semelhança com Deus seria um eco distorcido daquilo para o que fomos criados? Ou a consequência de termos nos separado d’Ele, tentando preencher o vazio com ilusões de grandeza?
A verdadeira semelhança com Deus não está na onipotência ilusória nem no desejo de domínio, mas na capacidade de amar, de criar, de entregar-se. É aí que o homem encontra sua verdadeira identidade — não no poder sobre o mundo, mas no reflexo d’Aquele que o criou à sua imagem.
O homem nunca pode ser maior do que aquilo que está destinado a ser: ele mesmo. Sua grandeza não reside no domínio sobre as coisas, nem na expansão de seu conhecimento ou poder, mas na plena realização de sua existência conforme o propósito para o qual foi criado. A verdadeira conquista do homem não é a do mundo, mas a de si mesmo.
Sua vida terrena é a obra que ele constrói a partir do imenso poder que lhe foi confiado no livre-arbítrio. Cada decisão, cada ação, cada pensamento contribuem para a edificação do próprio ser, como um artista que molda a argila do seu destino. Mas essa obra não é um fim em si mesma; é parte de um desenho maior, um microcosmo da existência destinado a integrar-se na totalidade do cosmos divino.
Deus criou para o homem todo o universo como um cenário no qual ele possa exercer sua liberdade, explorar, descobrir e participar da própria criação. Mas o homem, por sua vez, é chamado a responder a esse dom com a sua contribuição: sua vida não lhe pertence apenas a si mesmo, mas também ao tecido do bem comum, à harmonia do todo. Assim como Deus deu forma ao cosmos, o homem é convidado a dar forma à sua pequena parcela da realidade, a construir o seu mundo interior e a compartilhá-lo com os outros.
Aqui reside o sentido último do livre-arbítrio: não na imposição do eu sobre o criado, mas na integração da própria existência ao desígnio divino. A liberdade humana só encontra significado quando se orienta para o bem, quando a obra pessoal se une à obra de Deus, contribuindo para a redenção do mundo e para a plenitude de todos os seres.
Nesse sentido, a história de cada pessoa não é um relato isolado, mas uma página da grande história da humanidade, tecida no mesmo tear da vontade divina. A pergunta não é apenas o que fazemos com a nossa vida, mas como a nossa vida se insere no desígnio eterno. Cada ato de amor, cada gesto de justiça, cada sacrifício sincero é uma pedra na construção do Reino de Deus na terra.
Assim, a maior vocação do homem não é buscar a própria glória, mas participar da glória de Deus. Seu destino não é ser mais do que aquilo que é, mas ser plenamente aquilo para o que foi criado: uma criatura feita à imagem do seu Criador, refletindo, na pequenez da sua existência, a imensidão do amor divino.

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